Falta de remédios na rede pública deixa pacientes sem tratamento

Prefeitura divulgou lista com 7 medicamentos e os motivos pela falta de fornecimento; pacientes reclamam da falta de tratamento


Após quase 30 minutos de espera, o aposentado Benedito Gonçalves, de 75 anos, saiu de mãos vazias da UBDS (Unidade Básica de Saúde) da Vila Virgínia, na zona Oeste de Ribeirão Preto. O único objetivo era buscar uma pomada de uso ginecológico, prescrito para a mulher dele há seis meses. Mas, assim como outros seis medicamentos, a pomada está em falta na rede pública de saúde.

"Essa é a oitava vez que tomo um ônibus e venho até aqui apenas para pegar esse remédio, e a resposta é sempre a mesma: não tem e não existe previsão de chegada. A gente precisa tirar dinheiro da aposentadoria e nos cuidar, sem depender dos postinhos", destaca o aposentado.

E ele não é o único. A receita de Cleonice Fernandes, 55, emitida em março de 2017, está prestes a perder a validade, já com os sinais do tempo. Contudo, um "não" foi ouvido mais uma vez nesta quinta-feira (15).

"Não tenho útero, ovários e, por isso, preciso dessa fórmula. Como venho todos os meses pegar alguns remédios de uso controlado e materiais de curativo para a minha mãe, aproveito e tento conseguir um tubo -  sem sucesso. As gases são fornecidas em menor quantidade também. Segundo o que me falaram, é por causa do baixo estoque em todo o município", diz.

Por meio de nota, a Divisão de Farmácia e Apoio de Diagnósticos informou que o fornecedor da pomada Estriol (procurada por ambos os entrevistados acima) solicitou o cancelamento do contrato devido a interrupção da produção pelo laboratório. Ainda não há previsão de reposição.

Crianças sem antibióticos  

Na fila de aproximadamente 15 pessoas, às 9h45, a mãe de Sofia, 1 ano e 9 meses, também saiu sem o antibiótico amoxilina com clavunato para a pequena, que há uma semana está com infecção de urina.

"Ela reclama o dia todo de dor, coceira, mas não sabíamos o que era. Nós a levamos na UBDS e a médica indicou justamente o medicamento que não está disponível. Agora, vamos ter que tirar dinheiro do que reservamos para o leite e comprar em uma farmácia particular", afirma a mãe, Franciele Teixeira, 21.

Outro lado 

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, seis medicamentos ainda estão em falta na rede pública por que os fornecedores não cumpriram o edital de licitação para aquisição dos produtos.

Veja a lista dos remédios em falta nas farmácias da rede pública:

Amoxicilina + clavulanato: prescito para tratamento de infecções: interessados não cumpriram o edital da licitação

Hidróxido de Alumínio: antiácido. Segundo a Saúde um novo contrato e pedido foram encaminhados ao fornecedor.

Metildopla 500 mg: anti-hipertensivo: medicamento está em falta devido a falta de matéria-prima no mercado nacional.

Naltrexona 50 mg: usada principalmente para o tratamento de dependentes de morfina

Salbutamol em gotas para tratamento de asma aguda: interessados não cumpriram o edital da licitação

Estriol Cr. Vaginal hormônio usado nos anos que antecedem ou sucedem a menopausa: fornecedor solicitou o cancelamento de contrato devido a interrupção da produção pelo laboratório.

Neomicina + Bacitracina para infecções de pele e mucosas: interessados não cumpriram o edital da licitação

Falta de medicamento é injustificável  

Para José Sebastião dos Santos, especialista no assunto e ex-secretário municipal da Saúde, o fornecimento de certos medicamentos, como os descritos na lista acima, é um dever do SUS e está muito bem definido na Constituição brasileira. Por isso, a falta deles torna-se injustificável.

"Além do prejuízo para quem depende desse serviço, a situação sobrecarrega o sistema, pois o quadro do paciente pode ficar ainda mais grave e ele precisará passar novamente por atendimento médico. Assim, tanto as unidades de saúde quanto as farmácias ficam cheias", diz.

Santos ressalta, ainda, que a interrupção do fornecimento de remédios é uma falta de planejamento da cidade. "Mesmo quando há uma justificativa, a rede deve oferecer outras alternativas a população e, principalmente, instruir os seus médicos a não prescrever justamente estes medicamentos", ele finaliza.

Caso o munícipe se sinta lesado, uma denúncia pode ser feita ao Ministério Público de Ribeirão Preto.